Os Seis Grandes Erros

O Seis Grandes Erros

Faze o que tu queres será o todo da Lei.

A Ordo Templi Orientis desperta curiosidade e, frequentemente, equívocos. Parte disso ocorre pela influência da ficção popular sobre o imaginário do ocultismo e das sociedades fraternas. Nossa atuação com magia sexual também gera interpretações imprecisas sobre nossos costumes e práticas.

Este texto busca esclarecer as seis percepções mais comuns que não correspondem à nossa realidade, oferecendo uma visão transparente sobre nossa natureza e propósitos.

1. Somos uma fraternidade espiritual, não uma escola de magia

No passado, o estudo da magia exigia romper barreiras sociais significativas. Era necessário encontrar mestres que operavam discretamente, submeter-se a processos complexos e, por vezes, perigosos, apenas para acessar conhecimentos básicos. Por isso, pessoas se reuniam em grupos e sociedades para estudar ocultismo, misticismo e espiritualidade, frequentemente de forma reclusa para proteger seus membros.

O século XXI transformou completamente essa realidade. Atualmente, obras sérias sobre ocultismo estão disponíveis em livrarias e online. Vídeos ensinam tradições e técnicas livremente. Cursos respeitáveis são anunciados e frequentados sem restrições. Diversas sociedades ainda existem com o objetivo explícito de ensinar técnicas e tradições mágicas.

Este não é o objetivo central da Ordo Templi Orientis.

Somos uma sociedade fraterna onde cada indivíduo pode manifestar sua verdadeira natureza e buscar o autoconhecimento. Fazemos isso através do estudo de técnicas específicas de Magick e, fundamentalmente, através da convivência entre nossos membros em um ambiente de fraternidade, tolerância e aceitação mútua. Nosso propósito é estabelecer uma Irmandade Universal baseada nos conceitos da Lei de Thelema, uma sociedade construída através da experimentação e da vivência constante.

Estudamos técnicas de magia de diversas tradições, além de misticismo, meditação e muitas outras práticas. Contudo, isso é considerado secundário. Nosso principal foco está em compreender como viver plenamente sob a Lei de Thelema, explorando seus conceitos filosóficos, místicos e religiosos para aplicá-los em nossas vidas cotidianas, dentro e fora de nossos templos. O estudo da magia serve como suporte ao aprendizado de Thelema, especialmente através do estudo de Magick.

2. Somos pessoas comuns em um caminho de autoconhecimento

Os membros da O.T.O. são, antes de tudo, seres humanos como qualquer outro. Trabalhamos para nosso sustento, nos relacionamos com pessoas de todos os tipos, amamos, enfrentamos desafios, erramos e acertamos. Nossa vida cotidiana não difere fundamentalmente da de outras pessoas.

A diferença está na escolha consciente de seguir um caminho de espiritualidade no qual buscamos, com diferentes graus de sucesso pessoal ou coletivo, evoluir em nossa consciência sobre nós mesmes, sobre o outro e sobre o mundo. Através disso, buscamos descobrir quem realmente somos, nosso propósito na vida e viver em plenitude. Chamamos isso de descoberta da Verdadeira Vontade e realização da Grande Obra.

Não possuímos um manual rígido para isso, nem seguimos regras inflexíveis sobre como cada membro deve se comportar em sua vida pessoal ou coletiva. Nosso princípio fundamental é que, se almejamos nossa própria liberdade pessoal, devemos também respeitar a liberdade alheia, mesmo quando esta nos causa desconforto. Para nós, o respeito à verdadeira natureza de cada pessoa é essencial.

Portanto, não procure em nossos membros padrões de comportamento baseados em expectativas pessoais externas. Cada indivíduo vive sua jornada de forma única, e essa diversidade é valorizada, não suprimida.

3. Iniciação não confere superioridade pessoal

Seu caminho iniciático é exclusivamente seu e não interessa a mais ninguém. Dentro da O.T.O., ter um determinado grau iniciático não confere a ninguém superioridade moral ou poder de comando sobre outras pessoas, seja dentro ou fora da Ordem.

Temos uma hierarquia, mas esta está vinculada a cargos administrativos, não a graus iniciáticos, e funciona apenas dentro do contexto organizacional da Ordem. O respeito deve advir da seriedade do trabalho executado, do conhecimento demonstrado e das ações para com os demais membros da Ordem e também para com pessoas fora dela, não de graus ou títulos recebidos.

Uma das grandes máximas da Ordem é: “governar é servir”. Quanto mais alto o grau iniciático ou o cargo ocupado por um membro, mais se espera que essa pessoa busque servir aos demais membros e tenha responsabilidade por seus atos. Jamais se espera que busquem honrarias ou privilégios pessoais.

4. Liberdade não significa libertinagem

A Lei de Thelema não é uma licença para irresponsabilidade ou libertinagem. Embora sejamos livres para fazer o que quisermos, isso não significa que possamos deixar de assumir plena responsabilidade pelas consequências de nossos atos, sejam quais forem. Considerar essas consequências e decidir conscientemente se desejamos lidar com elas é um ato de maturidade e de verdadeira liberdade.

É importante esclarecer a distinção entre a esfera pessoal e a esfera coletiva da Ordem. A O.T.O. não se intromete nas práticas e costumes pessoais de seus membros. Cada pessoa é livre para explorar suas fantasias, práticas sexuais consensuais ou fazer uso de substâncias em sua vida privada, bem como participar de práticas religiosas que incluam o uso sacramental de substâncias alteradoras da consciência, como a ayahuasca em contextos ritualísticos apropriados. Contudo, essa liberdade individual não exime ninguém da responsabilidade pelas próprias ações e decisões, nem das consequências legais, sociais ou pessoais que possam advir dessas escolhas.

O que a Ordem afirma categoricamente é que a O.T.O., enquanto instituição, não é um espaço para orgias sexuais, execução de parafilias, consumo de entorpecentes ou álcool, ou qualquer tipo de atividades que violem a legislação vigente. A Ordem respeita rigorosamente a legislação de cada país onde atua e possui seus próprios regulamentos internos, aos quais todos os membros se comprometem a seguir. A O.T.O. não realiza, promove, facilita ou instiga seus membros a participarem de qualquer ação que possa ser considerada ilegal pela legislação do país onde esteja operando. Nossas atividades institucionais são conduzidas sempre dentro dos mais estritos parâmetros legais e éticos.

Posicionamo-nos firmemente contra qualquer atitude abusiva, racista, sexista, homofóbica, transfóbica, intolerante ou que impeça a livre expressão da sexualidade, identidade de gênero, manifestação cultural ou religiosa, sempre dentro dos parâmetros legais e regulamentares estabelecidos. Nossa liberdade é construída sobre responsabilidade e respeito mútuo, tanto na esfera pessoal quanto na coletiva.

5. Progresso exige dedicação e trabalho genuíno

Não acredite que conseguirá avançar em graus ou descobrir os verdadeiros segredos e mistérios da Ordo Templi Orientis através de acordos, favores políticos, conchavos, amizades ou qualquer outro atalho. Para nós, evolução verdadeira só é alcançada através da dedicação ao trabalho e ao serviço.

Isso é Karma Yoga, uma de nossas bases mais fortes: o caminho da autolibertação através da ação desinteressada, realizando tarefas sem apego aos resultados, transformando o trabalho diário em serviço e oferenda para um propósito maior. Essa prática, realizada sem buscar recompensa pessoal, traz clareza, paz mental e autoconhecimento, integrando a vida espiritual e material.

Se você busca um lugar onde possa obter vantagens pessoais ou networking, ou um local onde possa avançar sem esforço genuíno, a Ordo Templi Orientis certamente não é o que procura. Valorizamos a transformação autêntica que vem do comprometimento sincero.

6. Abraçamos plenamente a vida e a existência

Thelema não vê a vida e a existência como “sujas”, “pecaminosas” ou como qualquer forma de “punição”. Não possuímos noções como pecado, mundos de expiação, éticas e morais absolutas ou dogmas rígidos. Para nós, o mundo e a vida encarnada nele são experiências maravilhosas a serem plenamente vividas.

Entendemos a existência do sofrimento e da dor, e os aceitamos sem glorificá-los. Mas também aceitamos plenamente a alegria e o prazer, vivendo-os com igual intensidade. Por tudo isso, nossos membros são encorajados a buscar viver o máximo de experiências possíveis em suas vidas, cada uma sendo vista como fonte de prazer, experiência e conhecimento.

Não nos afastamos da vida traçando limites entre o “sagrado” e o “mundano”. Para nós, tudo é sagrado. Cada momento, cada experiência, cada interação carrega potencial de significado e transformação.

Se você procura a O.T.O. como um lugar onde possa se esconder da vida e de tudo que nela há, não encontrará isso. Muito pelo contrário, será constantemente convidado a “sair do templo” e experienciar plenamente sua vida.

Conclusão

Esperamos que este texto tenha esclarecido os principais equívocos sobre a Ordo Templi Orientis e oferecido uma visão mais precisa de quem somos e do que fazemos. A O.T.O. é, fundamentalmente, um espaço de liberdade responsável, onde o autoconhecimento é buscado através do trabalho dedicado, da convivência em comunidade e de um aprendizado que integra teoria e prática. Como disse nosso reformulador, Aleister Crowley, “somos infinitamente tolerantes, exceto à intolerância”.

Nossa estrutura contempla tanto o ramo mágico, através da Mysteria Mystica Maxima, quanto o ramo religioso, através da Ecclesia Gnostica Catholica. Ambos os ramos oferecem caminhos complementares para a exploração dos mistérios de Thelema, permitindo que cada membro encontre as ferramentas e práticas mais adequadas à sua própria jornada de descoberta da Verdadeira Vontade.

Convidamos você a conhecer a Ordem sem ideias preconcebidas, permitindo que a experiência direta revele a verdadeira natureza de nosso trabalho. A porta está aberta para aqueles que buscam sinceramente crescer em liberdade, responsabilidade e fraternidade.

Amor é a lei, amor sob vontade.

Rolar para cima