O Que É Thelema

A filosofia conhecida como Thelema teve seu início em 1904, quando da escritura do Liber AL vel Legis (o Livro da Lei) no Cairo pelo poeta, pintor, alpinista e ocultista inglês Aleister Crowley. Aqueles que seguem esta filosofia são chamados de Thelemitas.

Teologia e Metodologia

A teologia Thelêmica postula que toda existência manifesta surge da interação de dois princípios cósmicos: o Contínuo Espaço-Temporal, infinitamente extenso e perpétuo, e o Princípio da Vida e Sabedoria, atômico e individual. Desta interação surge o Princípio da Consciência, o qual governa a existência. No Livro da Lei estes princípios divinos são personificados através de três divindades egípcias: Nuit, a deusa do espaço infinito, Hadit, a Serpente Alada da Luz, e Hórus, o deus solar com cabeça de falcão e senhor do Cosmo.

O sistema teológico Thelêmico utiliza divindades de várias culturas e religiões como personificações de forças cósmicas arquetípicas – ou seja, estas personificações não são encaradas como divindades externas ao ser humano e sim como componentes do próprio espírito de cada homem e mulher. A doutrina Thelêmica sustenta que todas as diversas religiões humanas baseiam-se em princípios fundamentais verdadeiros (verdades universais em suas simbologias, ainda que não absolutas) e o estudo comparativo, desapaixonado e crítico, destas religiões é uma atividade de grande importância para muitos Thelemitas.

Respeitando os conceitos de cada indivíduo, Thelema segue o Hermetismo tradicional na doutrina de que cada pessoa possui um Corpo de Luz, uma alma organizada em “camadas” anexas ao corpo físico. Da mesma forma considera-se que cada indivíduo possui um Augoeides, ou Sagrado Anjo Guardião (SAG), o qual pode ser considerado como sendo o Self Superior. No que tange aos conceitos de pós-morte, a própria vida é considerada como um continuum, sendo a morte parte integrante da mesma. A vida termina para que a vida continue. O SAG, entretanto, é imortal, não estando submetido aos ciclos de vida e morte.

Tal como na doutrina budista, o Corpo de Luz é considerado como sendo passível de metempsicose (reencarnação) após a morte do corpo físico. Considera-se que Corpo de Luz evolui em sabedoria, consciência e poder espiritual através de tais ciclos de reencarnação, para aqueles que assim decidem proceder, até o ponto em que se encontra a Verdadeira Vontade daquele espírito e o indivíduo está capacitado a partir em direção à execução de sua Grande Obra, o objetivo máximo de sua existência enquanto parte do Todo representado por Nuit.

Thelema incorpora a ideia da evolução cíclica da Consciência Cultural, bem como da Consciência Pessoal. A História é considerada como sendo dividida em uma série de Aeons, cada um dominado por um conceito de divindade e com sua própria forma de redenção e avanço espiritual. O Aeon é o de Hórus. O anterior foi o de Osíris e antes deste foi o de Ísis. O Aeon neolítico de Ísis é considerado como tendo sido dominado pela ideia matriarcal de divindade, sua fórmula envolvendo a devoção à Deusa-Mãe para a obtenção da nutrição que ela providenciava. O Aeon clássico/medieval de Osíris teve como dominante o princípio patriarcal, cuja formula de redenção era o auto-sacrifício e a submissão ao Deus-Pai. O contemporâneo Aeon de Hórus é centrado no Princípio da Criança, da sobrevivência individual, cuja fórmula é o crescimento, da consciência e do amor universal (Ágape), levando à auto-realização.

De acordo com a doutrina Thelêmica a expressão da Lei Divina no Aeon de Hórus é o “Faze o que tu queres será o todo da Lei”. Esta é a chamada Lei de Thelema e não deve ser interpretada como uma licença à realização de qualquer ato ou capricho e sim como uma missão divina de se encontrar sua Verdadeira Vontade, o propósito da vida de cada um, e ao cumprimento desta; permitindo a todos o trilhar de seus caminhos individuais. A aceitação (e verdadeira compreensão) da Lei de Thelema é o que define um Thelemita; e a descoberta de sua Verdadeira Vontade sua maior motivação. Alcançar “o Conhecimento e a Conversação com o Sagrado Anjo Guardião” é considerado parte integrante deste processo. Os métodos e práticas para se alcançar tal feito são vários e encontram-se agrupados no conceito de “Magick”.

Nem todos os Thelemitas utilizam todas as práticas disponíveis; é considerado que cada um deva escolher as práticas que mais se enquadrem às suas necessidades individuais. Algumas destas práticas são as mesmas ou bem similares às de várias religiões ou outras tradições ocultistas ou místicas, tanto do passado quanto do presente, tais como meditação, Yoga, estudo de textos religiosos, estudos de simbolismos, rituais, exercícios devocionais, autodisciplina, Tantra etc.

A filosofia Thelêmica considera que qualquer ato que vá contra a descoberta e o cumprimento da Verdadeira Vontade como sendo negativo. Isto inclui a interferência também no trilhar de terceiros. Reza a doutrina de Thelema que a desarmonia e o desequilíbrio causados por tais atitudes resultam em uma resposta compensatória do Universo, em busca de equilíbrio – um pensamento semelhante ao conceito oriental do karma. Thelema não possui um conceito semelhante ao conceito judaico-cristão do Diabo ou Satã, ou mesmo do Mal. Contudo, uma pseudopersonificação do estado de confusão mental, ilusão e ignorância egoísta é referido pelo nome do demônio Choronzon.

Práticas Usuais

Quase todos os Thelemitas mantém um registro de suas práticas pessoais e de seu progresso em um “diário mágico”. Muitos Thelemitas praticam diariamente o ritual descrito no Liber Resh vel Helios e/ou o banimento chamado Rubi Estrela. Também costumam adotar nomes mágicos (ou “motes”), como forma de determinar um objetivo, trabalhar um arquétipo determinado ou homenagear algo ou alguém e costumeiramente utilizam como cumprimento a Lei de Thelema.

Textos Thelêmicos Fundamentais

O livro “The Holy Books of Thelema” inclui a maioria dos livros considerados por Crowley como “inspirados”, os quais formam o cânon das escrituras sagradas Thelêmicas. O principal destes é o Liber AL vel Legis, sub figura CCXX, comumente denominado o Livro da Lei. O conteúdo desta obra é bastante críptico e Crowley deixou alguns comentários para ajudar na sua compreensão (a maioria deles inclusa no livro “The Law is for All”). Entretanto considera-se que cada Thelemita interprete o Liber AL à sua maneira particular, sem jamais buscar esta interpretação com outra pessoa ou aceitando que lhe impunham uma determinada interpretação.

Um dos principais objetivos Thelêmicos é sempre evitar qualquer forma de dogma. Outro livro que forma um par importante com o cânon Thelêmico, apesar de não estar incluso no “The Holly Books of Thelema” por motivos técnicos é o Liber XXX Aerum vel Saeculi, sub Figura CDXVII, comumente chamado “The Vision and The Voice”. O I Ching e o Taro, apesar de pré-Thelêmicos, são considerados como parte do cânon Thelêmico informal. Outra obra fundamental para o conhecimento da filosofia Thelêmica são o Liber OZ, sub figura LXXVII, talvez a primeira carta de direitos do Ser Humano. Nele é exposta a filosofia de liberdade.