A História da Ecclesia Gnostica Catholica

A Igreja Gnóstica

Jules Doinel
Jules Doinel

O fundador da Igreja Gnóstica foi Jules–Benoît Stanislas Doinel Du Val–Michel (1842 – 1903). Doinel foi um bibliotecário, maçon do Grande Oriente, antiquário e espírita praticante. Em suas frequentes tentativas de comunicação com espíritos, ele se confrontou com uma visão recorrente do Divino Feminino sob vários aspectos. Ele gradualmente desenvolveu a convicção que seu destino envolvia participar na restauração do aspecto feminino da divindade a seu lugar propício na religião.

Em 1888, enquanto trabalhava como arquivista na Biblioteca de Orléans, ele descobriu uma escritura original datada de 1022 que fora escrita pelo Canône Stephan de Orleáns, um mestre e precursor dos Cátaros que ensinava doutrinas gnósticas. Stephan foi queimado no fim do mesmo ano por heresia.

Doinel ficou fascinado pelo drama dos Cátaros e por sua heroica e trágica resistência contra as forças do Papa. Ele começou a estudar sua doutrina e aquelas de seus predecessores, os Bogomils, os Paulinos, os Maniqueístas e os Gnósticos. A medida que seus estudos progrediram, ele ficou gradualmente convencido que o Gnosticismo era a verdadeira religião por trás da Maçonaria.

Uma noite em 1888, o “Eon Jesus” apareceu para Doinel numa visão e lhe designou o trabalho de estabelecer uma nova igreja. Ele consagrou espiritualmente Doinel como “Bispo de Montségur e Primaz dos Albigenses”. Após sua visão do Eon Jesus, Doinel começou a tentar contato com espíritos Cátaros e Gnósticos em sessões do salão de Maria de Mariategui, Lady Caithness e Duquesa de Medina Pomar.

Doinel era um longo associado de Lady Caithness, que era uma proeminente figura nos círculos do espiritismo francês da época, discípula de Anna Kingsford e líder do ramo da Sociedade Teosófica. Ela considerava a si mesma uma reencarnação de Maria Stuart; e, interessantemente, uma comunicação espírita em 1881 prenunciou a ela uma revolução na religião que resultaria numa “Nova Era de Nossa Senhora do Espírito Santo”. As sessões gnósticas de Doinel eram frequentadas por outros notáveis ocultistas de várias seitas, incluindo Abbé Roca, um ex–padre católico e amigo de Stanislas de Guaita e Oswald Wirth. A comunicação com os espíritos era geralmente recebida através de um pêndulo suspenso por Lady Caithness sobre um quadro com letras.

Numa sessão, Doinel recebeu a seguinte mensagem:

Eu me dirijo a você porque você é meu amigo, meu servo e o patriarca de minha Igreja Albigense. Eu estou exilada do Pleroma, e sou Eu que Valentinus nomeou Sophia–Achamôth. Sou Eu que Simão, o Mago, chamou Helene–Ennoia; pois Eu sou o Andrógino Eterno. Jesus é a Palavra de Deus; Eu Sou o pensamento de Deus. Um dia Eu retornarei a meu Pai, mas Eu requisito ajuda para isso; isso requer a súplica de meu Irmão Jesus para interceder por mim. Apenas o Infinito pode redimir o Infinito, e apenas Deus pode redimir Deus. Ouçam bem: O Um trouxe adiante o Um, e então o Um. E o Três são senão o Um: o Pai, a Palavra e o Pensamento. Estabeleça minha Igreja Gnóstica. O Demiurgo não terá poder contra ela. Receba o Espírito Santo.

Em outras sessões, o Cânone Stephan e Guilhabert de Castres, Bispo Cátaro de Toulouse no século XII, que foi martirizado em Montségur, foram contatados. Numa outra sessão, em setembro de 1889, a “Muito Alta Assembléia de Bispos do Espírito Santo”, consistindo em 40 Bispos Cátaros, manifestaram–se e deram seus nomes, que mais tarde foram checados e comprovados nos registros da Biblioteca Nacional.

Guilhabert de Castres
Guilhabert de Castres

O cabeça da Assembléia era Guilhabert de Castres, que se dirigiu a Doinel e o instruiu a reconstituir e ensinar a doutrina gnóstica fundando uma Assembléia do Espírito Santo, a ser chamada de Igreja Gnóstica. Helene–Ennoia iria auxiliá–lo, e eles estariam unidos espiritualmente.

A Assembléia seria composta de “Perfeitos” e “Perfeitas” e teria como livro sagrado o Quarto Evangelho, o Evangelho de João. A igreja seria administrada por bispos homens e mulheres “sophias”, que seriam eleitas e consagradas de acordo com o Rito Gnóstico.

Doinel proclamou o ano de 1890 como o início da “Era da Gnose Restaurada”. Ele assumiu o ofício de Patriarca da Igreja Gnóstica sob o nome místico de Valentin II, em homenagem a Valentinus, o fundador da escola Valentiniana de Gnosticismo no séc. V. Ele consagrou bispos, e todos escolheram um nome místico começado com a letra grega Tau, a fim de representar a cruz grega Tau ou o Ankh egípcio.

Gérard Encausse (Papus)
Gérard Encausse (Papus)

Entre os primeiros Bispos e Sofias consagrados por Doinel estavam: Gérard Encausse, também conhecido como “Papus” (1865 – 1916), como Tau Vincente, Bispo de Toulouse (mais tarde, em 1890, Doinel entrou na Ordem Martinista de Papus e rapidamente se tornou membro de seu Supremo Conselho); Paul Sédir (o nome real era Yvon Le Loup, 1871 – 1926) como Tau Paul, assistente de Toulouse; Lucien Chamuel (o nome real era Lucien Mauchel) como Tau Bardesane, Bispo de La Rochelle e Saintes; Louis–Sophrone Fugarion (b. 1846) como Tau Sophroinius, Bispo de Béziers; Albert Jounet (1863 – 1923) como Tau Théodote, Bispo de Avignon; Marie Chauvel de Chavigny (1842 – 1927) como Esclarmonde, Sophia de Varsóvia; e Léonce–Eugène Joseph Fabre des Essarts (1848 – 1917) como Tau Synesius, Bispo de Bordeaux.

A Igreja tinha três graus de membros: o alto clero, o baixo clero e os fiéis. O alto clero consistia no par de Bispos e Sophias, que eram responsáveis pela administração da igreja. Eles eram eleitos por suas congregações e mais tarde confirmados com uma consagração formal pelo Patriarca. O baixo clero consistia num par de diáconos e diaconesas, que trabalhavam sob a direção dos Bispos e Sophias, e eram responsáveis por conduzir as atividades do dia–a–dia da igreja. Os Fiéis, ou membros leigos da Igreja, eram referidos como “Parfaits” (homem) e “Parfaites” (mulheres), designações que podem ser traduzidas como “Perfeitos” [Nota da Tradução: sinalizam “Eleitos”], termo derivado do Catarismo.

De todo modo, na Igreja de Doinel, o termo “Perfeito” não era entendido no sentido Cátaro como alguém que teria assumido votos estritos de ascetismo, mas era interpretado como incluindo as duas maiores divisões da tripartida classificação dos Valentinianos sobre a raça humana: os Pneumáticos e os Físicos; mas excluindo a divisão mais baixa, os materialistas Hílicos. Apenas indivíduos considerados de grande inteligência, refinamento e mente aberta eram aceitos na Igreja Gnóstica de Doinel.

A Igreja Gnóstica de Doinel combinou as doutrinas teológicas de Simão, o Mago, Valentinus e Marcus (um tardio Valentiniano notado por seu desenvolvimento do mistério dos números e letras e também do “casamento místico”) com sacramentos derivados da Igreja Cátara e conferidos em rituais fortemente influenciados pelos da Igreja Católica Romana. Ao mesmo tempo, a Igreja Gnóstica pretendia apresentar um sistema de Maçonaria mística.

Uma Missa Gnóstica, chamada “Fraction du pain” ou “Partilha do Pão” foi composta. A liturgia sacramental da Igreja era completada pela inclusão de dois sacramentos Cátaros, o Consolamentum e o Appareillamentum.