Edward Alexander “Aleister” Crowley

(1875 – 1947)
Frater Baphomet
Frater Superior e Cabeça Externa da Ordem, Xº Ordo Templi Orientis (reformulador)
Xº Astrum Argentum  (fundador)
 Soberano Patriarca e Primaz da IgrejaCatólica Gnóstica (reformulador)
IVº Ordem Hermética da Aurora Dourada


Primórdios de Vida

Aleister Crowley nasceu em 12 de Outubro de 1875 e.v., no n° 36 da Claredon Square, cidade de Warwickshire, Inglaterra. Seu nome de batismo era Edward Alexander Crowley e nasceu como membro de uma família rica e religiosa, sendo seu pai um destacado Irmão de Plymouth e pregador leigo. Desde cedo mostrou- se rebelde — a ponto de receber de sua mãe o apelido de “Besta de Apocalipse” — chegando mudar seu nome para Aleister (forma gaélica de Alexander) apenas para não ter o mesmo nome do pai, o qual morreu quando Crowley tinha 11 anos.

Bem como muitos garotos ativos, Crowley envolveu-se em uma série de atividades, algumas bastante incomuns, como a fabricação de fogos de artifício domésticos (o que quase o levou à morte) a experiências para comprovar a “teoria das nove vidas dos gatos”. Matriculado da Universidade de Trinity, Cambridge, onde sua principal disciplina parecia ser o alpinismo (esporte que praticaria ainda por muitos anos, chegando a escalar o Chogo Ri em 1902 e o Kanchenjunga em 1905), viveu à maneira da aristocracia privilegiada, com grande atividade sexual (aparentemente tanto com mulheres quanto com homens). Começou também a trabalhar junto ao Corpo Diplomático da Coroa Britânica. Entretanto o próprio Crowley comentou que “a fama de um embaixador raramente sobrevive um século”, decidindo assim deixar sua marca no mundo.

O Envolvimento com a Magia

Com tal propósito, após passar por uma epifania, começou a buscar vivências mais interessantes. A leitura do livro de Carl von Eckrtshausen, “A Nuvem sobre o Santuário”, colocou-o em contato com a idéia de uma sociedade secreta de grandes iniciados, a qual dirigia os destinos da Humanidade desde o princípio dos tempos, a Grande Fraternidade Branca de Mestres. Crowley traçou então como seu caminho o objetivo de conquistar seu lugar entre tais iniciados.

Este caminho levou-o ao contato com a Hermetic Order of the Golden Dawn, em 1898 e.v., aos 23 anos. Adotando o nome mágico de Perdurabo (do Latim, “eu persistirei”), avançou rapidamente nas fileiras da Golden Dawn, inicialmente estudando sob os auspícios de Alan Bennett (que o introduziu ao consumo das drogas nas quais viria a viciar-se posteriormente), o qual era o herdeiro espiritual de S. L. MacGregor Mathers, líder da Ordem. Bennett deixou a Inglaterra em 1899 por razões de saúde, mudando-se para o Ceilão (Sri Lanka), onde ingressou em um monastério budista. Crowley, abandonado à própria sorte, conseguiu abalar a Ordem severamente, graças à força de sua personalidade. Em 1900 ele completou os estudos necessários à obtenção do grau de Adeptus Minor. Entretanto a liderança inglesa da Ordem, desaprovando as atividades homossexuais de Crowley, recusou seu avanço. Assim, ele viajou a Paris, onde o próprio Mathers conduziu sua iniciação — o que desagradou grandemente os membros ingleses.

Este desagrado levou muitos dos membros londrinos a deixarem a Ordem e Mathers foi quase expulso da Golden Dawn, especialmente após ter posto sua autoridade em risco ao revelar suas suspeitas de que de que os documentos que levaram à fundação da Ordem poderiam ser, de fato, falsificações. Crowley tentou obter, assim, a liderança da Ordem. Como em qualquer disputa séria entre magistas, os alegados ataques astrais começaram. Crowley registrou que os adversários o haviam atacado magicamente, com a evidência de que sua capa de chuva entrou em combustão espontânea em um momento no qual ele encontrava-se, sem razão alguma, em um estado de fúria tão intenso que os cavalos fugiam assustados apenas de olhar para ele. No final, entretanto, foi nos tribunais que a disputa foi resolvida. Crowley foi expulso da Golden Dawn apenas dois anos após juntar-se a ela, principalmente graças aos esforços de Willian Butler Yeats, que não aprovava seus métodos de magia.

A Escritura do Livro

Cansado das disputas, Crowley decidiu-se a viajar pelo mundo. Seu roteiro incluiu o México, Índia, França e Ceilão, onde reencontrou Alan Bennett e estudou Yoga. Neste período deu-se seu primeiro casamento, com Rose Kelly, irmã do pintor da Academia Real Gerald Kelly, a qual revelou-se posteriormente, para surpresa de Crowley, como uma clarividente. Juntos, viajaram ao Egito, onde se daria a mais importante experiência de sua vida, em março de 1904 e.v.. Há muitos anos Crowley tentava o contato com seu Sagrado Anjo Guardião, através dos métodos descritos no “Livro da Sagrada Magia de Abramelim, o Mago”, sem sucesso. Mas foi no Cairo, através da interferência de Rose Kelly, que Crowley encontrou aquele que veio a considerar como sendo o seu Sagrado Anjo Guardião.

De acordo com os próprios registros de Crowley enquanto tentava (sem sucesso) invocar silfos para divertir sua esposa, esta começou a receber uma poderosa mensagem psíquica do antigo deus egípcio Hórus. Cético em relação à clarividência de sua esposa, iniciou uma série de testes para verificar o grau de veracidade desta comunicação. Após responder corretamente uma série de perguntas cujas respostas Rose Kelly não poderia ter conhecimento prévio ele levou-a ao Museu Boulaq onde, após passarem por várias imagens de Hórus, ela apontou para uma Estela (placa de pedra retangular com o topo curvo contendo imagens e inscrições) que não podia ser muito bem vista do ponto onde se encontravam. Quando examinada, a Estela (hoje conhecida como Estela da Revelação) apresentava uma imagem de Hórus e, para espanto de Crowley, estava catalogada com o número 666. Crowley havia adotado o 666 como seu número pessoal como uma rebelião contra a religião de sua família muito tempo atrás.

Após invocar Hórus Crowley alcançou seu objetivo. Por três dias consecutivos recebeu e transpôs para o papel, de uma entidade que se identificava como Aiwass, o texto do Liber AL vel Legis, o Livro da Lei. Este livro tornou-se o foco da filosofia de Crowley, mesmo tendo sido por ele rejeitado a princípio. Ele nomeou-se o Profeta do Novo Aeon, que seria o fim da Era de Osíris e o início da Era de Hórus, um novo começo para a Humanidade, no qual todas as religiões deveriam ser deixadas de lado.

O Profeta de Uma Nova Era

Após a escritura do Livro da Lei, Crowley, em seu estilo pomposo de ser, escreveu uma carta a Mathers, onde anunciava o Equinócio dos Deuses e que havia forjado um novo elo místico com os Mestres Secretos, tornando-se assim a suprema autoridade mágica. Isto, naturalmente foi o estopim de um novo duelo mágico, do qual Crowley aparentemente saiu vitorioso. De acordo com ele, Mathers enviou uma de suas discípulas, uma vampira que teria se apresentado como “uma mulher jovem, de beleza enfeitiçante”, mas da qual teria sido capaz de defender-se, “transformando-a em uma feia mulher sexagenária, curvada e decrépita”. Mathers então teria enviado uma “corrente de malignitude” que teria matado os cães de Crowley e adoecido seus empregados. Crowley teria retaliado conjurando as forças do demônio Belzebu e seus 49 servos. Após este ato, as ações de Mathers teriam cessado. Anos depois, após a morte de Mathers por gripe muitos acreditaram que ele teria sido assassinado por magia.

Não está muito claro por que, após o encontro com Aiwass e a suposta batalha com Mathers, Crowley aparentemente perdeu o interesse pela magia durante vários anos. Em 1905 e.v. ele foi membro de uma expedição fracassada ao Himalaia, na qual vários componentes perderam a vida. Passou vários anos viajando pela China, Canadá e Estados Unidos, acompanhado ou não de sua esposa e filha, Lola Zaza. Retornando de uma de suas viagens solitárias, porém, recebeu a chocante notícia que sua amada filha havia morrido de tifo em Rangoon (Índia).

Em 1907 e.v. Crowley fundou a Astrum Argentum (A∴A∴), a Ordem da Estrela de Prata, primeira organização centrada no Livro da Lei, cujo manuscrito abandonado havia sido redescoberto. Em 1909 e.v. começa a publicação do “The Equinox” , órgão oficial da A∴A∴, cuja publicação era feita nos Equinócios de Primavera e Outono, sendo a maioria dos artigos de autoria do próprio Crowley.

Neste mesmo ano ele divorciou-se de Rose Kelly, então uma alcoólatra O divórcio permitiu que Crowley mergulhasse em seu caminho de magia, pontilhado por drogas e mulheres, sem as restrições de uma vida marital.
É interessante notar que Crowley afirmava ser a reencarnação do ocultista Eliphas Levi, o qual morrera no ano de seu nascimento. Na discriminação de suas vidas passadas também arrolou o Conde Cagliostro, um ocultista do séc XVIII, fundador do Rito Maçom Egípcio, bem como Alexandre VI, o notório Papa Bórgia, e Edward Kelley, o vidente que junto ao mago elisabetano John Dee, havia criado o sistema Enochiano de magia.

Crowley e a Ordo Templi Orientis

Em 1910 e.v. Crowley foi contatado por Theodor Reuss, líder da Ordo Templi Orientis. Reuss acusava-o de haver publicado o segredo do Grau IX° da O.T.O. em seu “Livro das Mentiras”. Uma conversa entre os dois mostrou que uma passagem publicada por Crowley havia incitado os líderes da O.T.O. a acreditarem que Crowley era um praticante de magia sexual, a qual era usada nos rituais da Ordem. Pouco depois ele uniu-se à O.T.O. e, em 1912 e.v., tornou-se o líder da Ordem para os países de língua Inglesa.
Em 1916 e.v., morando perto de Bristol, Crowley promoveu-se ao nível de Magus através de uma cerimônia de sua própria autoria. De acordo com Richard Cavendish em seus livros “History of Magic” e “The Powers of Evil in Western Religion” (ambos não mais publicados) esta cerimônia envolvia batizar um sapo como “Jesus de Nazaré” e crucificá-lo, com o objetivo de livrar sua mente de qualquer símbolo cristão que pudesse influenciá-lo.

Durante a I Guerra Mundial, Crowley mudou-se para os Estados Unidos, onde escreveu vários textos de propaganda antibritânica. Posteriormente explicou-se dizendo que estes eram apenas um tipo de sátira mas isto não ajudou em nada sua já abalada imagem pública.

A Abadia de Thelema em Cefalú

Após a Guerra, Crowley teve uma filha, Poupeé, com Leah Hirsig (conhecida como Mulher Escarlate) e, em 1920 e.v., fundou a Abadia de Thelema na cidade de Cefalú, localizada na ilha italiana da Sicília A Abadia logo se tornou conhecida como um “antro de insanidade”. O vício de Crowley em heroína e cocaína mostrou-se fora de controle. Aqui ele escreveu o livro “Diary of a Droug Fiend”, onde conta sua luta contra o vício através de uma novela onde sua pessoa divide-se em um casal com este mesmo objetivo. Entretanto foi lá que a tragédia abateu-se novamente sobre ele, com a morte de Poupeé enquanto Crowley viajava por Londres, Paris e a Abadia. Foi também quando um de seus seguidores, Raoul Loveday, morreu em conseqüência da água impura do loca. Com isto o destino da Abadia estava selado. A esposa de Loveday, Betty May, vendeu sua história ao tablóide londrino The Sunday Express. Os jornais encheram-se de reportagens sobre magia negra e outros atos escandalosos supostamente realizados na Abadia. Estas reportagens levaram o ditador Benito Mussolini a expulsar Crowley da Itália em 1923 e.v.

De lá Crowley mudou-se para a Tunísia e depois para a França, onde lutou bravamente contra seu vício de anos em heroína. Da França mudou-se para a Alemanha, voltando depois para a Inglaterra, onde passou seus últimos quinze anos.

Em 1955 e.v. o cineasta Kenneth Anger rodou um curto documentário sobre a Abadia de Thelema, que havia sido exorcizada após a partida de Crowley. Os murais que Crowley havia pintado tinham recebido uma grossa camada de tinta branca por cima, a qual teve de ser retirada para revelar esta e outras evidências físicas da passagem de Crowley pelo local.

Em 1925 e.v. deu-se a eleição de Crowley como líder mundial da O.T.O.. A não aceitação desta liderança — e da implantação de Lei de Thelema na Ordem — levou muitos membros a fundarem uma dissidência, conhecida como O.T.O. Antiqua (não telêmica). Em 1929 e.v. deu-se a publicação do livro “Magick: In Theory and Practice”.

Os Últimos Anos

Crowley casou-se em Londres pela segunda vez, com sua amante, Maria Tereza de Miramar, no mesmo ano em que eles, juntamente com seu amigo e secretário Israel Regardie foram expulsos da França, 1929 e.v.. No ano seguinte encontrou-se, em Portugal, como o poeta Fernando Pessoa, que havia lido seu livro “Confessions of Aleister Crowley: An Autobiography” e ficado encantado.

Em 1934 e.v. Crowley envolveu-se em um processo judicial contra a Nina Hamnett e Constance & Co., o qual perdeu. Isto acabou levando-o à falência no ano seguinte. Foi durante este processo que um juiz rotulou-o como sendo “o pior homem na face da Terra”.

Em 1939 e.v. publicou “Eight Lectures on Yoga” e sugeriu ao Primeiro Ministro Britânico Winston Churchill o sinal do “V da Vitória’. A década de 40 apresentou um ressurgimento de Crowley. Junto com Lady Frieda Harris, cria e publica seu baralho de Taro, o Livro de Thoth.

Em 1942 e.v. publicou o Liber OZ na forma de um manifesto da O.T.O.. A partir de 1945 passou a viver em Hastings, sul da Inglaterra onde recebeu novos discípulos como Kenneth Grant, John Symonds e Grady McMurtry Foi neste período em que foram escritas as cartas que foram posteriormente publicadas no volume “Magick Without Tears”.

Crowley morreu em 1° de dezembro de 1947, vítima de bronquite crônica e problemas cardíacos em sua casa na cidade de Hastings. Diz a lenda que suas últimas palavras teriam sido “eu estou perplexo”, mas como ele morreu sozinho isto não pode ser comprovado. No dia 5 de dezembro seu corpo foi cremado em Brighton, em uma cerimônia assistida por amigos, admiradores e discípulos.

Crowley e a Maçonaria

É assunto controverso o envolvimento de Aleister Crowley com a Maçonaria. Nenhuma prova documental foi apresentada até este momento que confirmasse ou negasse que ele tenha participado desta Ordem.

Entretanto, no livro “Confessions”, ele afirma ter sido iniciado ao Grau 33º do Rito Escocês durante sua estada na Cidade do México (pelas mãos de um suposto Don Jesus Medina) e em outro rito (não identificado) em Paris.

Neste livro Crowley dá também a entender que possuía ligações com vários outros Ritos, tendo chegado a ocupara altos postos em alguns e mesmo sido encarregado de tentar restaurar a maçonaria cuja decadência era, segundo ele, óbvia para qualquer membro inteligente.

Não se sabe ao certo se estas declarações são verdadeiras ou não. De fato, não há registros de sua passagem por nenhum Rito maçônico ou mesmo de seu iniciador. O que se nota é que Crowley tinha, por certo, um extenso e profundo conhecimento da Maçonaria, não apenas de seus rituais e práticas mas também das formas de agir (éticas ou antiéticas, principalmente estas) de seus membros, o que levou a uma série de críticas contundentes de sua parte contra esta Ordem.

Importância Cultural

Considerado por muitos como um egocêntrico, um charlatão, um louco ou coisa pior, é inegável que a importância de Crowley para o ocultismo é inigualável. Poucos praticantes de magia podem gabar-se de ter mudado o mundo ocultista da mesma forma que ele. Seus preceitos encontram-se presentes em várias tradições mágicas modernas, mesmo as que não seguem a Lei de Thelema, tais como a Wicca, baseada na obra de Gerald B. Gardner, e a Cientologia de L. Ron Hubbard, ambos ex-discípulos de Crowley.

Muitos movimentos culturais também foram influenciados por ele. Desde o cinema, na figura de Kenneth Anger à música (há uma foto dele em no disco dos Beatles “Sargent Pepper‘s Lonely Hearts Club Band”). Grupos musicais como o Black Sabbath, o Led Zeppelin e os Rolling Stones colocam as obra de Crowley como fonte de influência. Nas artes plásticas o pintor H. R. Giger pode ser citado como um de seus inúmeros admiradores. Na literatura podemos citar a obra de Aldous Huxley e Robert A. Heinlein.

No Brasil é importante salientar a obra musical de Raul Seixas, onde o nome e as palavras de Crowley surgem de forma explícita. Além disto outros músicos já se confessaram admiradores de Crowley como Renato Russo e Rita Lee.